quarta-feira, 7 de outubro de 2009


O Samba do Físico Doido

"Charlatães?", pergunta a capa da revista, em letras garrafais de um verde fosforescente. E logo embaixo tasca: "Correntes esotéricas abusam de conceitos da física e da biologia para justificar fenômenos que nada têm a ver com a pesquisa científica." A revista em questão resolveu investir pesado contra o que considera uma apropriação indébita da ciência por parte do esoterismo, do pensamento holístico e, sobretudo, das terapias alternativas, que são o grande alvo não declarado da reportagem. Mas, se as terapias alternativas são o grande alvo, a principal vedete e o cavalo-de-batalha mor da questão é a mecânica quântica. Não por acaso. Desde sua origem, algumas interpretações da mecânica quântica têm colocado em xeque os principais pilares sobre os quais se apóia a ciência ocidental, sobretudo o materialismo e o pressuposto realista, isto é, a crença (indemonstrável, e tomada pelos cientistas como axiomática) de que existe uma realidade independente da percepção que temos dela. Mais ainda, essas interpretações apresentam uma semelhança mais do que notável com idéias e visões de mundo que vêm sendo defendidas por aqueles que, desde o século XVIII, a ciência aprendeu a ver como seus inimigos figadais: as religiões e o ocultismo. Nada mais natural, portanto, que os defensores da ideologia cientificista ficassem irritados quando esse pessoal resolveu aceitar o mote proposto por Niels Bohr, Wolfgang Pauli e outros pais da mecânica quântica (e popularizado por Fritjof Capra em O Tao da Física), utilizando os conceitos da mecânica quântica para pensar questões religiosas e metafísicas. Por mais que seja compreensível, porém, é uma reação passional - e, como pretendo mostrar, preconceituosa.

Seguindo o que ensina o manual de redação de qualquer jornal moderno, o autor da reportagem, ouviu ambas as partes no debate, e cita declarações tanto dos físicos que condenam a alegada apropriação indébita quanto de alguns autores que teriam incorrido nesse suposto crime. Também cita terapeutas holísticos que são contrários a essa mistura de ciência e pensamento alternativo. Mas, em momento algum, menciona nenhum cientista que seja favorável a essa aproximação.

A impressão que temos ao ler a matéria é a de que esses cientistas não existem, e de que a ciência em peso condena qualquer tentativa de pensar o esoterismo e as religiões à luz da mecânica quântica ou vice-versa, endossando as palavras da física Maria Cristina Batoni Abdalla, entrevistada pela revista: "São abusos. Misturam linguagens criadas para explicar coisas totalmente diferentes. É como tentar usar taquigrafia para fazer cálculo integral: não faz sentido." Ora, qualquer pessoa que tenha lido pelo menos O Tao da Física - considerado o principal culpado por essa tendência, como se ela tivesse nascido de uma extravagância do autor - sabe que os primeiros a apontar as intrigantes semelhanças entre os conceitos da mecânica quântica foram os próprios físicos. E não físicos quaisquer, mas as mesmas mentes que desenvolveram essa teoria.

Um refinamento da velha sabedoria. - Não foi por acaso que Niels Bohr (um dos primeiros,
aliás, a também sugerir que o funcionamento da mente só poderia ser inteiramente compreendido com o uso da mecânica quântica) escolheu para seu brasão o símbolo taoísta do yin-yang. "Se buscarmos um paralelo para a lição da teoria atômica [...]", declarou Bohr, devemos nos voltar "para aqueles tipos de problemas epistemológicos com os quais já se defrontaram, no passado, pensadores como Buda e Lao Tsé, em sua tentativa de harmonizar nossa posição como espectadores e atores no grande drama da existência."

O pupilo dileto de Bohr, Werner Heisenberg, criador do célebre princípio da incerteza, era da mesma opinião: "A grande contribuição científica em termos de Física teórica que nos chega do Japão desde a última guerra pode ser um indício de uma certa relação entre as idéias filosóficas presentes na tradição do Extremo Oriente e a substância filosófica da teoria quântica." E Robert Oppenheimer, o pai da bomba atômica, foi ainda mais taxativo:

"As noções gerais acerca da compreensão humana [...] ilustradas pelas descobertas da Física atômica estão longe de constituir algo inteiramente desconhecido, inédito, novo. Essas noções possuem uma história em nossa própria cultura, desfrutando de uma posição mais destacada e central no pensamento budista ou hindu. Aquilo com que nos deparamos não passa de uma exemplificação, de um encorajamento e de um refinamento da velha sabedoria."

Sine ira et studio. - Se isso não é o bastante para convencer o leitor da revista de que nem todos os cientistas concordariam com a afirmação de Maria Cristina Abdalla de que religião e física são "coisas totalmente diferentes", talvez Erwin Schrödinger o faça mudar de idéia. Lembremos que, sem Schrödinger, a mecânica quântica simplesmente não existiria, pelo menos não como é hoje. Foi ele quem desenvolveu a equação de onda que se encontra no coração matemático da teoria quântica. Todas as interpretações variantes da mecânica quântica são tentativas de traduzir a equação de onda de Schrödinger no contexto de uma teoria mais ampla.

Pois bem, em 1944, Schrödinger escreveu um livrinho chamado O Que é A Vida?, qualificado por Roger Penrose como um dos "mais influentes escritos científicos deste século". Nessa obra, em pouco mais de cem páginas cujo alcance é desproporcional ao tamanho, Schrödinger desenvolve uma meditação sobre a possibilidade de que a mecânica quântica pudesse ajudar a compreender alguns dos problemas da biologia relativos à natureza da vida. E conclui com um epílogo que não deixa a menor dúvida de que, para ele, a aproximação entre ciência e religião pode ser tudo menos espúria. Diante de afirmações peremptórias como a do "físico e filósofo Osvaldo Pessoa Jr., da USP", para quem o "esforço para associar a física ao misticismo (...) não tem base científica", vale a pena olhar o epílogo de Schrödinger mais de perto:

Como recompensa pelos grandes embaraços que tive ao expor o aspecto puramente científico do nosso problema sine ira et studio, permitam-me que manifeste, agora, o meu próprio ponto de vista, necessariamente subjetivo, quanto às implicações filosóficas.

De acordo com as evidências expostas nas páginas anteriores, os fenômenos do espaço-tempo de um organismo vivo, correspondentes à atividade de sua mente, a sua autoconsciência e a suas outras ações (considerando também sua estrutura complexa e a explicação estatística aceita da físico-química) são, se não estritamente determinísticos, pelo menos estatístico-determinísticos. Para o físico, desejo enfatizar que, em minha opinião, e contrariamente à opinião mantida em alguns setores, a indeterminação quântica não tem neles qualquer papel biológicamente relevante, exceto talvez por sublinhar seu caráter puramente acidental em eventos tais como a meiose, a mutação natural e a mutação induzida por raios X etc. - sendo isso, de qualquer modo, óbvio e bem reconhecido.

Para fins de argumentação, permitam-me considerar esse aspecto como um fato, como acredito que qualquer biólogo sem preconceitos o faria se não existisse a desagradável e bem conhecida sensação de 'declarar-se a si próprio como puro mecanismo'. Pois isto está fadado a contradizer o Livre-Arbítrio tal como ele se encontra garantido pela introspecção direta.

A única inferência possível. - Até aqui, Schrödinger parece estar se movendo nas águas seguras do cientificismo e, de fato, sua convicção sobre a natureza determinística da vida provavelmente chocariam os defensores do pensamento holístico e os adeptos do movimento new age. Na verdade, em tempos do atual determinismo genético, poucos biólogos deixariam de endossar as afirmações de Schrödinger. O mesmo, entretanto, não pode ser dito das conclusões que ele extrai dessas premissas:

Mas experiências imediatas, em si mesmas, quão numerosas e diferentes sejam, são logicamente incapazes de se contradizerem mutuamente. Assim, vejamos se não somos capazes de extrair a conclusão correta, não-contraditória, das duas premissas seguintes:

(i) Meu corpo funciona como um puro mecanismo, de acordo com as Leis da natureza.

(ii) Ainda assim, sei por experiência direta e incontestável, que comando seus movimentos, dos quais prevejo os efeitos, que podem ser decisivos e extremamente importantes, em cujo caso sinto e assumo por eles total responsabilidade.

A única inferência possível a partir destes dois fatos, imagino, é que eu - eu no sentido mais amplo da palavra, ou seja, toda mente consciente que jamais disse ou sentiu "eu" - sou a pessoa, se é que existe alguma, que controla "o movimento dos átomos", de acordo com as Leis da Natureza.

Deus factus sum. - Aqui, começamos a nos afastar claramente da ideologia cientificista e nos aproximamos da seara dos místicos:

No âmbito de um determinado ambiente cultural (Kulturkreis) em que certos conceitos (que já tiveram ou ainda têm um significado mais amplo entre outros povos) foram limitados ou especializados, é ousado dar a essa conclusão a palavra simples que ela requer. Na terminologia cristã, dizer "Logo, eu sou o Deus Todo-Poderoso" parece tanto blasfemo quanto lunático. Mas, por favor, abstraiam por ora essas conotações e considerem se a inferência acima não é o mais próximo que um biólogo pode chegar para provar, de uma só vez, a existência de Deus e da imortalidade.

Pronto, está aí, dito com todas as letras. Schrödinger parte da mecânica quântica aplicada à biologia para chegar a Deus. Não, claro, do velho barbudo sentado numa nuvem com que sonham os fundamentalistas, mas de Deus tal como o concebiam os místicos orientais e ocidentais:

Em si, a idéia não é nova. Os registros mais antigos datam, até onde sei, de 2.500 anos atrás. Desde os primitivos grandes Upanishads, no pensamento indiano, a identificação de ATHMAN = BRAHMAN (o eu pessoal iguala-se ao eu eterno, e onipresente e onisciente), longe de constituir uma blasfêmia, representava a quintessência da mais profunda intuição quanto aos acontecimentos do mundo. O maior empenho de todos os estudiosos da escola Vedanta era, após o aprendizado dos movimentos dos lábios para a pronúncia correta, realmente assimilar em suas mentes este pensamento, o mais grandioso de todos.

De novo, os místicos de muitos séculos, independentemente, mas em perfeita harmonia uns com os outros (algo como ocorre com as partículas de um gás ideal) descreveram, cada um deles, a experiência única de sua vida em termos que podem ser resumidos na expressão DEUS FACTUS SUM (Tornei-me Deus).

Pouco importa se Schrödinger estava ou não certo em suas idéias sobre a contribuição da mecânica quântica à biologia ou a respeito da questão espinhosa do determinismo x livre-arbítrio. O que interessa no contexto é que ele não via nada de errado em, para citar a chamada de capa da Galileu, usar "conceitos da física e da biologia para justificar fenômenos que nada têm a ver com a pesquisa científica". Eu me pergunto se, no entender da profª Abdalla, Schrödinger (Erwin Schrödinger, lembremos, e não o terapeuta holístico da esquina) também estaria tentando usar taquigrafia para fazer cálculo integral...

Samba do crioulo quântico. - É claro que vai um universo de distância entre as especulações de um Schrödinger e os exemplos selecionados pelo autor da matéria, como o da aluna que procurou o físico George Matsas, da Unesp: "Ela propôs a seguinte questão: se a teoria da relatividade diz que tudo é relativo e a mecânica quântica garante que tudo é incerto, como conciliar as duas coisas para explicar o poder de cura dos cristais?" A própria escolha dos exemplos, no entanto, é tendenciosa, feita para dar a impressão de que todas as tentativas de aproximar ciência e misticismo situam-se nesse patamar que mistura ingenuidade e desinformação. Não se situam.

Quem está familiarizado com a história da filosofia ocidental sabe que o neoplatonismo é uma interpretação assumidamente religiosa do pensamento platônico e, de fato, uma das fontes da magia ocidental, na medida em que os métodos desenvolvidos por Jâmblico para obter uma experiência direta dos deuses foram incorporados aos rituais da magia cerimonial - ou seja, o tipo de coisa que deixaria espumando de raiva os êmulos de Carl Sagan entrevistados pela revista

Contudo, mesmo os exemplos caricatos que, da forma como são mostrados na revista, parecem ser um verdadeiro samba do crioulo quântico, estão longe de constituir a pedra de escândalo que pensam os cultores da ideologia cientificista. "Alguns exemplos dignos de menção", escreveo repórter, "são o uso da teoria das supercordas para explicar o símbolo cabalístico da árvore da vida, a afirmação de que os buracos negros são a porta de entrada para o plano espiritual da umbanda e a sugestão de que o DNA seria capaz de 'registrar' a Aids e assim a doença poderia ser transmitida às gerações futuras por essa via. De longe, porém, a idéia científica mais 'adaptada' é a mecânica quântica, que já foi evocada para explicar, entre muitos outros, até a astrologia, o tarô e o Tao."

Note-se que, para quem advoga a precisão do método científico, o autor da matéria mostra, nesse parágrafo, uma tendência flagrante para misturar alhos com bugalhos, já que coloca, no mesmo balaio de gatos, reflexões filosóficas (as analogias entre a mecânica quântica e o Tao ou as semelhanças entre a Árvore da Vida cabalística e a teoria das supercordas), hipóteses explicativas (as tentativas de explicar a astrologia e o tarô pela mecânica quântica) e exemplos de desinformação pura e simples (o DNA que registra a AIDS). Poderíamos atribuir essa falta de discriminação a uma falha metodológica do autor, se não houvesse a suspeita mais grave de que se trata de um artifício de retórica destinado a manipular a reação do leitor: ao colocar interpretações não-ortodoxas lado a lado com uma leitura errônea do conhecimento científico, o absurdo desta última "contamina" as outras, como se elas fossem igualmente errôneas. A questão que se coloca é: se as "apropriações" da ciência pelo esoterismo são realmente indevidas, qual a necessidade de recorrer a uma falácia retórica? Talvez porque, sem a ajuda dos sofismas, essas apropriações não pareçam mais tão indevidas assim...

Conexões sincronísticas. - Vamos deixar de lado o exemplo do DNA, primeiro porque repousa em um erro factual grosseiro e segundo porque eu não estou aqui pra defender o determinismo genético, que virou quase um paradigma dominante na biologia - o que só mostra que os cientistas também, como os leigos, são capazes de se agarrar a idéias não provadas para justificar suas próprias crenças. Fiquemos com os outros exemplos que, diferentemente do DNA capaz de registrar a AIDS, não se baseiam em erros de interpretação - quando muito, pode-se dizer que repousam sobre hipóteses não-comprovadas (e talvez não-comprováveis).

Já vimos que a aproximação entre a mecânica quântica e os conceitos da religião oriental, como o taoísmo e o budismo, não partiu de nenhum adepto maluco do movimento new age, mas dos físicos que criaram e desenvolveram a mecânica quântica na primeira metade do século XX. Da mesma forma, quem primeiro percebeu que a mecânica quântica fornecia uma moldura epistemológica adequada para se compreender técnicas divinatórias como a astrologia e o tarô não foi um astrólogo desesperado em busca de legitimação científica para sua profissão ou um tarólogo querendo impressionar os clientes para arrancar dinheiro deles. Foram um psiquiatra suíço e um físico austríaco, dois gigantes em seus respectivos campos de pesquisa: Carl Gustav Jung e Wolfgang Pauli.

Ao longo de uma correspondência de mais de vinte anos com Pauli, Jung desenvolveu um modelo teórico para explicar relações não-causais entre eventos físicos e psíquicos, ao qual denominou de sincronicidade e que ele relacionou à indeterminação quântica. Diga-se de passagem, desenvolvimentos posteriores da mecânica quântica a respeito das conexões não-locais, como o teorema de Bell e a experiência de Aspect, só vieram ratificar a posição de Jung. Pois bem, depois de expor a hipótese da sincronicidade, Jung mostra sua possível aplicação em diferentes áreas que vão da psicologia à biologia e a à física, passando pela parapsicologia. Nesse percurso, apresenta um elaborado modelo teórico para mostrar como a sincronicidade pode fornecer uma explicação razoável para "a Astrologia e os vários métodos intuitivos de interpretação dos acontecimentos causais" (o I Ching, o tarô, etc.). Depois de uma detalhada análise estatística dos dados astrológicos, Jung conclui que "podemos considerar o que aconteceu em nosso caso como sendo uma conexão sincronística: isto é, o material estatístico mostra que ocorreu uma combinação causal, não só praticamente como teoricamente improvável, que coincide de modo notável com as expectativas astrológicas tradicionais" (os grifos são de Jung).

As supercordas e o Nome de Deus. - A comparação entre as supercordas e a Árvore da Vida, por sua vez, baseia-se em uma forma de raciocínio que não tem muita utilidade para a ciência (a não ser, talvez, como fonte de inspiração inicial para a elaboração de hipóteses), mas que é o coração do pensamento mítico-religioso: o raciocínio analógico. As diferentes formulações da teoria das supercordas prevêem um número variável de dimensões extra, além das quatro dimensões tradicionais do contínuo espaço-tempo. De acordo com algumas versões, o número total de dimensões do universo seria dez, que é o mesmo número de sephiroth da Árvore da Vida, daí a comparação. Segundo a Cabala, as dez Sephiroth são os arquétipos que determinam todos os aspectos da existência, desde o nível físico até o espiritual. São, portanto, as coordenadas que determinam o universo, da mesma forma que as dimensões na teoria das supercordas. É claro que este último conceito é mais limitado, uma vez que a física, como o próprio nome diz, só se ocupa do aspecto físico da realidade. Mas, uma vez que, de acordo com a Cabala, cada sephirah possui também uma manifestação física concreta, a par com seus aspectos mais metafísicos, não seria descabido supor que as dez dimensões da teoria das supercordas representam a manifestação física das sephiroth. No máximo, pode-se censurar os autores da especulação por traçarem uma analogia com uma teoria física que ainda está longe de ser completa, uma vez que não se sabe sequer se esse número de dimensões está correto.

Outras variações da teoria das supercordas, por exemplo, prevêem nada menos que 26 dimensões. Mas também aqui o pensamento analógico teria com o que se alimentar, porque 26 é o número central da Cabala. Corresponde à soma dos valores numéricos do Tetragrama sagrado, isto é, o nome de Deus, IHVH (10 + 5 + 6 + 5), geralmente transliterado como Yahveh ou Jeová. Acontece que, na especulação cabalística, o Tetragrama é mais do que um nome. Derivado do verbo hayah, "ser", ele é considerado uma descrição simbólica de todas as transformações da energia divina que dão origem à nossa realidade, e existem diversos tratados cabalistas descrevendo as relações simbólicas entre as quatro letras do Tetragrama e o espaço-tempo.

Claro que para um Osvaldo Pessoa Jr. ou uma Maria Cristina Abdalla (ou mesmoo autor da matéria), esse tipo de raciocínio analógico não faz o menor sentido. Mas eles têm que compreender que, mesmo quando aplicada a conceitos científicos, trata-se de outra forma de pensamento, que não está preocupada em elaborar hipóteses para depois demonstrá-las empiricamente, mas em encontrar semelhanças e analogias que façam sentido do ponto-de-vista simbólico. Em outras palavras, ao criticar o uso que o esoterismo faz das idéias da ciência como sendo "não-científico", eles incorrem exatamente no mesmo erro que acreditam denunciar, o de empregar indevidamente os parâmetros de uma área para avaliar os resultados de outra. Trata-se de um erro que os lógicos denominam de metábase, palavra grega que significa "transposição" e que é aplicada às transposições arbitrárias de modalidades de raciocínio. Negar que a interpretação mística dos conceitos religiosos seja válida dentro de seu âmbito específico de aplicação é como criticar um pintor por ter retratado um por-do-Sol em vez de elaborar um teorema sobre o índice de refração dos raios solares pelas nuvens.

O buraco negro da umbanda. - O que dizer, porém, da "afirmação de que os buracos negros são a porta de entrada para o plano espiritual da umbanda"? Trata-se de uma afirmação aparentemente desvairada. No entanto, ela parte de especulações correntes entre os próprios físicos. É preciso compreender que ninguém tem a menor idéia do que acontece no interior de um buraco negro. E não se trata de uma ignorância provisória, destinada a se dissipar com o avanço do conhecimento científico. A impossibilidade de saber o que ocorre em um buraco negro nasce do próprio conceito. Buracos negros são o resultado do colapso gravitacional de uma estrela. À medida que uma estrela se contrai sem perder massa, a intensidade de seu campo gravitacional aumenta até que, ao ultrapassar determinado limite (o "raio de Schwarzchild"), a estrela entra em colapso e se produz uma singularidade, isto é, uma região onde as leis da física deixam de ser aplicáveis. Assim, os instrumentos matemáticos que a ciência usa para descrever a realidade não são capazes de descrever uma singularidade.

Isso não impediu os cientistas de especular. E alguns deles sugeriram que, talvez, os buracos negros possam ser, sim, portas de entrada para universos paralelos. Claro que o que eles tinham em mente não era nada metafísico, mas outros universos semelhantes ao nosso. No entanto, não existe nenhuma razão pela qual os buracos negros não possam se conectar com "o plano espiritual da umbanda" (partindo-se do princípio de que eles existam, o que pode ser duvidoso para um cientista, mas é axiomático para um umbandista). É improvável? É (literalmente). É impossível? Não.

Uma vez que a singularidade central dos buracos negros escapa ao conhecimento científico, dizer que elas dão acesso ao plano espiritual da umbanda torna-se uma questão de crença. Mas a afirmação contrária, de que eles não dão acesso ao plano espiritual da umbanda, também é uma questão de crença. Do ponto de vista epistemológico, as duas afirmações se equivalem. Nenhuma das duas pode ser provada ou desmentida, e se é inteiramente livre para acreditar ou não nelas, conforme elas se encaixem ou não na visão de cada um. Na visão científica, ela não se encaixa e o cientista a rejeita. Mas ela se enquadra na visão do umbandista - e ele a aceita.

por Lucio, do saudoso blog "franco atirador"

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