por W. Reich - o pai da psicoterapia corporal.
porque foges da verdade?
Só sabes sorver e apanhar, não sabes criar ou dar, porque a atitude básica do teu corpo é a retenção e o despeito; porque entras em pânico de cada vez que sentes os impulsos primordiais do AMOR e da DÁDIVA. É, por isso que tens medo de dar. A tua permanente avidez só tem um significado: és continuamente forçado a encher-te de dinheiro, de satisfações, de conhecimento, porque te sentes vazio, esfomeado, infeliz, ignorante e temendo a sabedoria. É, por isso que foges da verdade, Zé Ninguém – ela poderia fazer-te amar. e quando alguém te AMA e denuncia a sua prisão de ventre mental, não queres nem ouvir nem saber.Mas porque não me deixas dizer-te por que razão és incapaz de alegria?
A “questão religiosa”, por exemplo. Afirmas defender a “tolerância religiosa”; afirmas o teu direito à liberdade em matéria religiosa. Perfeito. Mas queres mais: queres que a tua religião seja a única. És intolerante quanto às outras. Ficas desesperado quando encontras alguém que, em vez de um Deus pessoal, adora a natureza e procura entendê-la.
Preferes que os cônjuges em vias de separação se processem judicialmente, se acusem de imoralidade ou de brutalidade, ou se mantenham infelizes mesmo quando já não lhes é possível viver juntos. Preferes a ilusão de uma relação bem sucedida a assumir o fim e aceitar novas alegrias para ambos. Tu, que és descendente de homens rebeldes, és incapaz de reconhecer o divórcio por mútuo consentimento - porque a tua própria obscenidade te assusta. O teu “chauvinismo” decorre naturalmente da tua rigidez, da tua prisão de ventre mental, Zé Ninguém. E não o digo com sarcasmo, porque te estimo, embora seja teu hábito esmagar os que te estimam e dizem a verdade.
Muitos foram os homens corajosos e solitários que serviram de exemplo e te mostraram o que deverias fazer. E sempre distorceste o que te era comunicado, sempre os conduziste à amargura e à destruição. Sempre lhes pegaste na palavra pela ponta errada, preferindo como regra de vida a pequena margem de erro à grande verdade; construíste a tua casa sobre a areia e agiste assim porque és incapaz de respeitar a vida, porque até o amor destróis antes que tenha tido tempo de desabrochar, porque não suportas nenhuma forma de espontaneidade viva, nenhum movimento livre e natural. Porque queres controlar seu corpo como a um eletrodoméstico funcional e social.
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