segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ser professor de yoga


lindo texto da Manuela Mendonça, com o qual me identifico profundamente e assino embaixo!!!!



"Dar aula não é fácil. Não é fácil ensinar qualquer coisa pra qualquer pessoa. Mais simples é fazer sempre a mesma coisa, tendo um modelo básico na mente. Difícil é olhar pra pessoa e tentar ver através dela. Ver o que ela não fala, não mostra e sequer percebe.
Pior ainda, o que exige uma capacidade especial de comunicação é conseguir falar não na própria língua, mas na língua da pessoa. Dar aula é antes de tudo, um trabalho que exige dedicação e abertura. Professor que não vê aluno não consegue ensinar nada. Não adianta soltar aos ares qualquer proposta. Alunos não são pescadores e professor com preguiça é frustrante.

Nunca pensei que eu fosse fazer o que faço hoje. Na época em que deveria escolher uma profissão não me passava pela cabeça ensinar coisa alguma. Professor rala muito e ganha pouco. Mas professor é rico, muito rico porque se alimenta de relação.
Hoje percebo a importância dos professores que tive e como foi determinante na minha vida a atenção especial que alguns professores me deram. Os que me olharam regaram sementes. Dos outros não restou nem a lembrança de um conteúdo sem utilidade. Não ouve o toque. Não aprendi. A voz não ressoou nos meus ouvidos.
Mas aqueles que leram, que ouviram e que se preocuparam, esses sim, fizeram na minha infância, brotar de dentro de mim, um começo de pessoa. Sentia que existia, que podia, que talvez conseguisse. Professor trabalha com o fortalecimento de um ser, em qualquer idade, em qualquer matéria. Professor é professor.


Professor de Yoga tem uma missão. Um trabalho muito especial. Sutil, delicado, impalpável. Professor de Yoga faz uma pessoa perceber a si mesma. Um corpo. Uma mente. Um indivíduo e um todo.
O professor de Yoga mostra o que é relativo, subjetivo e absoluto. Sim, apresenta o corpo. Músculos, melhor postura e blá blá blá. Mais do que isso. Mostra o que existe no corpo, que vive no corpo, que pulsa no corpo. E mais do que isso. Mostra que isso que vive no corpo, vive em tudo.
E assim vai, aos poucos, usando o corpo, revelando um algo a mais que é pra lá de muito mais. É extremamente orientador. Ésse algo a mais é a capacidade de contemplar. A si, aos outros e tudo isso junto.
É como um zoom que consegue entrar mais profundamente em um foco, mas que também consegue afastamento mais amplo, percebendo o contexto em que um foco está inserido. Agradeço aos céus cada vez que consigo me afastar de situações extremamente angustiantes quando percebidas isoladamente e insignificantes quando em um contexto maior.


Venho refletindo sobre esse ofício tão exquisito, tão sem limites e cada vez mais comum, que é dar aulas de yoga. Sobre o que é ser professor e finalmente, que linda é a relação entre professor e aluno. Quando não existe essa relação, mútua, não existe nada. Nada acontece ali. Não cresce nenhuma flor. Mas quando existe, que lindo, a evolução acontece mais rapidamente um duplas, trios, grupos. O ser humano é ser de coletivos.


É impressionante como é tentador o isolamento. Preguiça pura. Dar aula e sair fora. Seguir um programa sem perceber se o aluno está preparado para aqueles ensinamentos. Não explicar nada. Colar o nariz no relógio e tentar correr o máximo possível, afinal, "time is money". Isolamento gera mal humor e miopia. Dedicação e vida no coletivo gera abertura e compaixão. Ser professor exige dedicação. Exige estar ali, misturado. Exige gostar disso. Ser aluno, bom aluno, exige não estar isolado exigindo o que se quer pelo dinheiro investido.


E mais: Professor de Yoga não tira férias. Não separa a vida da profissão porque a própria vida é a fonte maior de aprendizados. E que beleza, cada esforço em direção ao conhecimento é recompensado por uma satisfação no coração por entender um pouco mais dessa coisa doida que é existir. A vida vai ficando cada vez mais clara, mais limpa, mais doce e grande, muito grande.

Dedico cada aula àqueles que me ensinaram e que vivem por aí a ensinar.  Agradeço àqueles que me puxaram as orelhas e que me cuidaram. Aos colegas que me ensinaram, e que hoje ainda confiam em mim para cuidar dos seus alunos. Agradeço aos alunos, pela santa paciência, pelo amor e dedicação. E espero poder ajudar, sendo aluna e professora, seja lá como for, a despertar um pouquinho do olhar que contempla e vê mais além de si."


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