por Marina Faissal
Em outras noites, o silêncio se prolonga. Depois, alguém se levanta e dança, depois um outro e um terceiro. Alguns apenas olham, mas seus olhos afirmam sua união profunda, sua participação. A dança continua até tarde e, quando todos finalmente voltam para casa, a unidade permanece, a alegria é genuína, e o repouso, completo. A dança une. União do homem com seu próximo, união do indivíduo com o todo...
A dança é um rito: ritual sagrado, ritual social. Encontraremos na dança essa dupla significação que está na origem de toda atividade humana.Dança sagrada, dança profana, o dançarino diante do desconhecido metafísico, o grupo unido em sua função social - a origem e a realidade de toda dança deve ser procurada nessas duas formas essenciais.
É lugar comum falar da solidão do homem moderno no seio de uma civilização dilacerante. O homem, contudo, não sofre apenas dessa solidão, mas também, e principalmente, de uma divisão profunda de seu ser. Nós dissociamos a educação do corpo da educação do espírito, e ambas da desse centro a que chamamos, segundo nossos costumes, alma, coração, intuição, conhecimento transcendente. As ciências físicas e naturais abstraem esse princípio e sua difusão no universo. As religiões não satisfazem a necessidade da nossa inteligência e nosso intelecto nega o corpo, enquanto a medicina não quer pensar uma alma ou espírito.
Existe um universo de atrofiados, paralisados durante todo o dia em escritórios, carros, em frente à televisão, se relacionando com telas de computadores, que na maior parte do tempo só usa uma parcela mínima do córtex cervical e que quando pratica alguma atividade física, ela é sem qualquer relação com a existência profunda de cada um e de todo o mundo. Habituaram-se a pensar o espírito aqui, o corpo lá, ali o sexo e do outro lado o coração - separação cujo tormento todos nós, homens modernos, podemos sentir profundamente.
A dança é uma das atividades humanas em que o homem pode experimentar o engajamento corpo, mente e coração.
"A dança é também uma meditação, um meio de conhecimento a um só tempo introspectivo e do mundo exterior. Háalguns anos, encontrei na Índia um mestre yogi autêntico e muito considerado. Revelei-lhe meu desejo de fazer yoga de maneira profunda, e não essa ginasticazinha para gente de sociedade com hipertensão a que estamos habituados. Ele me respondeu: ' A palavra Yoga significa união. Esta união você poderá encontrá-la na dança, pois a dança também é união. Você é dançarino. Shiva, o Senhor do mundo, o grande yogi, tem também o nome de Nataraja, o rei da Dança. Você é dançarino, você tem sorte. Que a sua dança seja o seu yoga, não precisa procurar outro. Ah, se todos os ocidentais pudessem reaprender a dançar!' " (Maurice Bejart)
A dança, portanto, não é apenas espetáculo, e o entusiasmo do público não será suficiente se não for devolvida à dança seu lugar nessa sociedade reprimida e em busca de definição que é a nossa.
Dançar é tão importante para uma criança quanto falar, contar ou estudar geografia. É essencial não se desaprender essa linguagem que já se nasce conhecendo, por influência de uma educação repressiva e frustrante. É preciso que se encare a dança ao nível da existência, e não apenas do espetáculo, transpondo, desse modo, a satisfação interior para a integração com o outro e com o todo.
O lugar da dança é nas casas, nas ruas, na vida.
Então, "o escravo se torna livre, rompem-se todas as barreiras rígidas e hostis que a miséria, o arbítrio e a moda insolente criaram entre os homens. Agora, pelo evangelho da harmonia universal, cada um se sente com seu próximo, não apenas reunido, reconciliado, fundido, mas idêntico em si, como se o véu de Maia se houvesse rasgado e dele não restassem senão os farrapos flutuando diante do misterioso UM-primordial" (Nietzsche in "O Nascimento da Tragédia")
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