terça-feira, 8 de dezembro de 2009

meditando com David Lynch

*texto escrito em 15/10/2008, ocasião do lançamento do livro.


Eu acho o David Lynch um dos maiores cineastas vivos (eu e a torcida do Flamengo, claro) - tanto pelos filmes mais antigos - Eraserhead, é demais; The Elephant man foi um dos filmes mais marcantes da minha vida; Wild Heart é o ápice da bizarrice romântica, coisa que eu adoro,Blue Velvet..., passando pelos curtas do iniciozinho de carreira (Um beijo pra galera do youtube!), pelo momento mais "certinho" de Straight Story, que eu acho lindo, pela "trilogia" formada por A Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos e Império dos Sonhos, com aquele monte de sequências perturbadoras...
Enfim, saber que ele pratica meditação há trinta anos e que atribui å prática o "elemento visionário de seus filmes" me deixou bastante admirada, a fim de ler o tal livro onde ele contava o grande segredo da criatividade.
Comprei "Catching the Big Fish" (no Brasil virou "Em Águas Profundas"- cafona pra caramba, aliás, de onde vêm essas traduções, meu deus?):

No livro, Lynch faz alguns comentários legais sobre "a natureza do cinema", conta casos dos bastidores de seus filmes, mas, quando trata do tema principal, meditação e criatividade, fica parecendo um "garoto-propaganda do Maharishi Mahesh Yogi" - o que não afetou em nada minha opinião sobre o cineasta, mas eu esperava mais do livro, ou pelo menos, achei que pudesse ser uma opinião menos fanática e radical sobre a prática da meditação, que é sempre confundida com religiosidade, ritualidades e haribôzices, e nem todo mundo tem muito saco pra essas coisas.

... mas o cara "prega" a meditação e pior, parece tentar catequizar seus leitores sobre a Meditação Transcedental, praticamente ignorando as outras infinitas formas de meditação que se pode praticar. Daí eu já estava com preguiça de ler, mas como era Lynch, e por regra ninguém entende nunca exatamente o que foi que ele quis dizer, mas nunca continua o mesmo depois que termina, fui até a última página. E as minhas conclusões foram:

1.A meditação é boa - Comer, Beber, Sexo, Praia, isso tudo também é, e não são necessariamente agentes fundamentais no processo criativo universal.
2.A meditação é boa para a criatividade - pois é, compramos o livro para saber: Como? Por quê e Quais são exatamente os efeitos da meditação sobre a criatividade? mas ficamos apenas com metáforas aleatórias sobre como a meditação ajuda a penetrar "em águas profundas" (sacou?) para capturar os peixes grandes que nadam por lá.
3.Meditação boa é meditação transcendental. Não é que Lynch considere a meditação transcendental superior. Ele nem menciona que existem outras formas de meditação, até porque o único conselho que ele esboça no livro é procurar a escola do Maharishi Mahesh Yogi mais próxima de sua casa (será que apresentar o livro no ato da matrícula dá direito a desconto?).

Eu não tenho absolutamente nada contra a meditação transcendental, muito pelo contrário. É uma das formas de meditação mais estudadas por médicos e neurocientistas desde a década de 60 e, se existe um consenso sobre ela, é que realmente funciona. E como já disse, David Lynch era, é e dificilmente vai deixar de ser um dos meus cineastas favoritos . Mas seria de supor que trinta anos de meditação gerassem uma reflexão com um pouquinho mais de "sustança"...
Praticar meditação é bastante difícil, e falo isso porque ainda estou engatinhando do processo de praticar o que seria de fato uma meditação completa e profunda... Mas aos poucos venho percebendo pequenas mudanças positivas na minha vida, e tenho me interessado especificamente pela relação entre o processo criativo e a serenidade da mente (essa expressão soa estranha, mas não me veio outra agora) - não só sobre a meditação como um estímulo à criatividade artística mas, principalmente, sobre a própria arte como uma possível forma de meditação e uma ferramenta potencial para o desenvolvimento e expansão da consciência. Daí que eu tinha todo o interesse em saber o que um artista como David Lynch teria a dizer sobre o assunto. Mas daí também a minha decepção com o pouco que ele tem a dizer ou, ao menos, com o pouco que ele diz em seu livro.
Fico com os filmes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário