quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

tirando os sapatos.

Sabemos que algumas viagens se tratam de uma peregrinação, porque ouvimos um certo “chamado”. Há um caminho e um lugar, mas ele não é um meio. É um fim. Não se trata de uma trajetória para um lugar, mas de um caminho para si.

O viajante espiritual não quer ir aos mesmos lugares onde o imaginário e o afeto sempre se refugiam. No passado, esse viajante era conhecido como “peregrino”: se lhes perguntassem para onde iam, diriam que a um lugar livre de si, de suas certezas e convicções. Lugar onde pudessem ser alforriados de seu olhar viciado, salvos do tédio de suas desconfianças, resgatados do fastio de suas preferências.

O peregrino logo aprende que valores são determinados pela relação e pelo movimento: será apenas em sua circulação pelo mundo, em seu intercâmbio com os outros (e diferentes outros), que ele perceberá valores e atribuirá valor à si e à sua vida.

Cada um percebe também, que há um roteiro interno que é trilhado para além da trajetória física do deslocamento. Nesse lugar interno, encontra pessoas que ganham características específicas e embora humanos comuns (e muitas vezes também peregrinos), promovem interações subliminares paralelas às que estão aparentemente acontecendo. Eles podem estar conscientes ou não dessa tarefa, e assumem três tipos distintos de função:

Os GUIAS podem ser pessoas que foram peregrinas e que abrem portais por meio de seu relato e arrebatamento. Eles transmitem a noção de que há tesouros importantes além dos portões da rotina e dos costumes antigos. Alertam para os perigos, mas dão ênfase aos frutos das novas experiências.

O maior argumento dos guias é que as incertezas só irão se desfazer depois de o primeiro passo ter sido dado. A cada passo, surgem alternativas que antes não existiam. Assim, os guias não apontam o destino, mas impulsionam o passo que é a nossa conexão com o presente. E o momento presente é o início de qualquer caminho.

Ninguém sabe o que vem depois, porque os caminhos não são feitos de estrada, mas de encontros e atenção. Aquilo que traça os percursos está no âmbito das interações, das trocas e das influências. Interação não tem nada a ver com controle. Controlar é tentar fazer sua vontade pessoal, enquanto interagir é entregar a outra vontade, maior que a sua. Os guias nos ensinam a não temer esse estado de entrega, e a reconhecer na entrega o caminho para nós mesmos.

Os ANJOS são aqueles que encontramos nas encruzilhadas. Têm a função de fazer as mudanças e correções necessárias. Peregrinar é caminhar sabendo que para cada passo há uma transversal, uma esquina com a oferta de uma alternativa para um novo destino.

Na tentativa de controlar e atar o futuro às nossas decisões, fazemos sempre a opção mental de construir o caminho por meio de nossas deliberações. No entanto, o caminho se faz das interações e não das escolhas e resoluções da vontade. Quem não entende isso, se perde e fica desorientado, sem entender como veio parar em um determinado lugar, quando suas decisões apontavam para outro destino.

Os anjos são essas pessoas com as quais interagimos e nos fazem dobrar esquinas da vida, apontam as mudanças de rotas, mudanças que quando feitas de forma consciente, com nossa plena presença e coragem, nos levam a nós mesmos. Parece complicado, mas não é: o que faz a diferença é reconhecermos esses anjos e darmos a possibilidade de nos mostrarem alternativas. Ir para si é acolher nosso destino, sabendo que ele não é produto de nossas decisões, mas de nossa interação com a vida. É mudar nossa caminhada tantas vezes forem necessárias, reconhecendo as possibilidades que se apresentam em nossa vida. Não se sentir perdido existencialmente vai depender de quanto vamos nos abrindo e reconhecendo esse mundo invisível, de gente que se faz Anjo de mundano que se faz sagrado.

Quando dependemos das decisões para empreender nosso caminho, ficamos sempre na dúvida sobre de deveríamos ter ido para a esquerda ou a direita. Essa é uma evidência de que não vimos os Anjos pelo caminho. Se os tivéssemos reconhecido, teríamos interagido com eles e a opção teria sido tomada através da interação e não da decisão mental. Quando a escolha é existencial, composta mais de presença do que de lógica, não há dúvidas quanto à trajetória.

Os VERIFICADORES nos oferecem a bênção de confirmar o lugar onde estamos. São pessoas que nos fazem reconhecer em nós mesmos a sabedoria e a experiência próprias de quem percorre seu caminho. Na troca de gratidão e respeito com o outro, temos a confirmação de uma trajetória que ainda não conseguíamos ver. São pessoas que conseguem polir o que para nós era opaco , tornando-o translúcido. Colorem o curso de nossa existência e nos resgatam.

Os Guias, os Anjos e os Verificadores são manifestações de um caminho cuja essência é de interação e não apenas de uma distância percorrida. Acha a si mesmo quem trilha sua vida por interações, porque sua existência se realiza no mapa da vida, não num papel mental.Ir para si é assumir sua responsabilidade para com o outro e para com o futuro.

Para isso, precisamos “tirar os sapatos”: sapatos são nossa proteção, nossas crenças e costumes.

O caminhante precisa de sapatos para caminhar, mas precisa também tocar o chão com a sola dos pés. O solo pode ser uma superfície irregular, e pode até nos ferir, mas essa será uma experiência de libertação e expansão. O objetivo do caminhante deve ser descalçar seus sapatos e pisar essa terra que é a essência. Adaptados, os sapatos nos parecem mais seguros, mas é do chão que vêm o alicerce e o embasamento.

A descoberta final de todo peregrino é que somos fundamentalistas, e nossos fundamentos são nossos sapatos: embora úteir, não deixam de ser uma superfície artificial. Tirando nossos sapatos, nos abrindo para o novo, reconhecendo guias, anjos e verificadores, podemos entender que esta busca por um canto de paz, essa terra prometida não estará em nenhum lugar, senão aqui mesmo, nesse ponto, que é terra santa, nesse lugar dentro de nós mesmos, que é sagrado.



“tira teu sapato dos pés porque o lugar em que estás é terra santa”

(êxodo 3:5)


- do livro "tirando os sapatos", de nilton bonder.

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