"a minha fé mais profunda é que podemos salvar o mundo pela verdade e pelo amor" (Gandhi)
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
O movimento dos corpos (parte I)
ou não... nada é definitivo, ou ainda: TUDO FLUI*
Objetivamente, "a vida é uma dança" porque tudo o que acontece na natureza é através do movimento, do ritmo, da contínua transformação, um eterno fluir.
Subjetivamente, a dança é fonte de vitalidade. Vitalidade é energia, força, movimento, expressividade, capacidade criativa, consciência.
A dança espontânea propõe uma forma, um caminho para a pessoa lidar com seu próprio corpo, com seu próprio ritmo, com suas emoções e expressividade. Existem diversas técnicas que se integram para propiciar o desenvolvimento da auto-percepção, da consciência corporal e da sua manifestação expressiva, num processo de envolvimento da pessoa consigo mesma, com o outro e com o que a cerca, através doa movimentos corpo.
A linguagem corporal subjetiva pode tornar-se objetiva, consciente, à medida que a pessoa vai se aprofundando neste processo, buscando o que ela tem dentro de si. Trata-se de uma concepção integrada do homem, na qual corpo, mente, sentimentos, gestos, e posturas constituem diferentes aspectos interdependentes de uma mesma individualidade.
A partir da noção do homem como um ser integral, dentro de uma concepção holística da realidade, da interdependência entre todos os fenômenos, podemos compreender a importância destas propostas como caminho para o autoconhecimento e que trazem grande contribuição para o campo da terapêutica humana.
O significado desta busca, dessa crescente difusão de “novas” técnicas de abordagem dos problemas de saúde, de desequilíbrios psico-fisiológicos, desajustes emocionais, stress... valorizando o trabalho com o corpo, é muito maior do que pode parecer à primeira vista. Principalmente porque logo vem o temor pelo “embuste”, pelo “charlatanismo”, em conseqüência da vulgarização a que tais técnicas estão sujeitas quando são tratadas superficialmente.
Podemos dizer que essa busca é o espelho de uma crise. Uma crise muito geral, que envolve todos os aspectos da vida.
Nós convivemos mais ou menos ajustadamente com o enorme potencial de autodestruição coletiva; com um acentuado processo de desintegração social; com instabilidades econômicas e políticas; com a vida e a saúde sempre ameaçadas pelas condições ambientais; com a disseminação de diversas doenças e um número crescente de pessoas neuróticas, depressivas, esquizofrênicas e cada vez mais diagnósticos de outras tantas e novas doenças psiquicas, todas decorrentes dos conflitos humanos gerados pela vida (pos) moderna.
Os avanços tecnológicos e científicos aliados à predominância dos meios de comunicação "padronizaram" o modo de se pensar e se conduzir, e todos passamos a viver cada vez mais mergulhados, conscientemente ou não, neste mundo global.
Nós convivemos com tudo isso e ainda nos consideramos “normais”. É preciso rever este critério de normalidade. É certo que, individualmente, nos sentimos impotentes para mudar algo de tamanha amplitude. No entanto, é preciso estarmos conscientes de que enquanto coniventes com a doença social, estamos adoecendo com ela.
Para nos ajustarmos à vida social, ao padrão cultural dominante, abandonamos muitos de nossos anseios pessoais. Nos desassociamos de nós mesmos. São raras as pessoas que fazem ou trabalham com o que gostam, ou que podem expressar, naquilo que fazem, todo o seu potencial íntimo de realização.
A não realização pessoal, a incapacidade de expressão, de criatividade e de produção é uma grande fonte, senão a principal, de distúrbios psicológicos, emocionais, mentais. É importante compreender como somos absorvidos pelos valores sociais e culturais dominantes. Certos valores já estão socialmente tão solidificados na nossa dinâmica de vida, que nem percebemos como interferem no nosso cotidiano, nem sabemos mais de suas origens.
Temos uma visão dualista do mundo: matéria x espírito; corpo x mente; ciência x religião.
Descartes, considerado o fundador da filosofia moderna, buscou um método que lhe permitisse obter a certeza absoluta, uma ciência baseada, como a matemática, em princípios fundamentais que dispensassem demonstrações. A chave para a compreensão do universo, segundo ele, estava em sua estrutura matemática. O método cartesiano é analítico: consiste em decompor pensamentos e problemas em suas partes componentes e em dispô-las em sua ordem lógica.
A ciência desenvolveu seu método de investigação e todo o fenômeno que não pode ser observado, quantificado, deduzido pelo método lógico-analítico de raciocínio foi considerado excluído dos fenômenos naturais e
visto como sobrenatural, relacionado com o domínio da fé. Está fora do âmbito do cognoscível. Descartes, entretanto, não negava Deus, nem a existência da alma. Deus era visto como um criador externo, monárquico, governante a partir do alto. Inatingível, incognoscível. Bem de acordo com a visão dominante do catolicismo.
O domínio da ciência se opõe ao domínio da religião. Não se pensava, então, que os fenômenos físicos, em si, pudessem ser divinos: “Não há propósito, vida, ou espiritualidade na matéria”.
Este método levou à fragmentação característica do nosso processo de conhecimento, investigação e estudo. Levou à fragmentação das disciplinas acadêmicas, que cada vez mais se especializaram em determinados objetos de estudo. Levou ao reducionismo na ciência: todos os fenômenos complexos da realidade podem ser compreendidos se reduzidos às suas partes componentes. O mundo passou a ser visto como uma máquina, desmembrável em suas partes: “Não reconheço qualquer diferença entre as máquinas feitas pelos artífices e os vários corpos que só a natureza é capaz de criar”.
A natureza passou a ser vista como um sistema mecânico enquanto a ciência foi adquirindo, cada vez mais, um caráter manipulador a serviço do desenvolvimento de uma nova ordem, preparando o terreno para a dominância da lógica do capital.
Desde os tempos antigos, as metas da ciência sempre haviam sido a sabedoria, a compreensão da ordem natural e a busca de uma vida em harmonia com essa ordem. A partir do século XVII, com a contribuição decisiva de Francis Bacon – o primeiro a formular uma teoria clara do empirismo na ciência – o objetivo desta se transformou radicalmente. Bacon ainda hoje é citado como fonte inspiradora de estudiosos – provavelmente porque se desconhece o envolvimento comprometedor que este homem teve com os processos de caça às bruxas enquanto serviu como procurador-geral do rei Jaime I e porque não se lê diretamente as suas obras. Nelas encontramos uma linguagem bastante violenta e francamente vil. Segundo Bacon, a natureza precisa ser “acossada em seus caminhos”, “forçada a servir-nos”, e transformada em nossa “escrava”. Ela deveria ser “posta em coerção” e a meta do cientista deveria ser “torturar a natureza para extrair dela os seus segredos”. Foi assentada sobre este espírito que se desenvolveu a nossa cultura ocidental levando às trágicas degenerações ambientais em que vive o homem moderno.
Quanto ao método de investigação científica, criou-se verdadeira obsessão pela medição e quantificação. As propriedades dos corpos consideradas essenciais eram as formas, quantidades e movimentos mensuráveis. Outras propriedades como o som, cor, cheiro, sabor foram consideradas como projeções mentais subjetivas e excluídas do domínio da ciência.
O ônus desta postura foi bem ressaltado pelo psiquiatra R.D.Laing: “Perderam-se a visão, o som, o gosto, o tato e o olfato e com eles foram-se também a sensibilidade estética e ética, os valores, a qualidade, a forma; todos os sentimentos, motivos, intenções, a alma, a consciência, o espírito. A experiência, como tal, foi expulsa do domínio do discurso científico”.
Este modo de ver o mundo disseminou-se por todas as demais áreas do conhecimento e só aqueles fatos plausíveis de se enquadrarem nesta ótica de estudo é que se tornaram merecedores da atenção dos cientistas e estudiosos.
Na dualidade mente-corpo, o homem também foi reduzido a uma máquina. A doença vista como o mau funcionamento dos mecanismos biológicos, e estes, por sua vez, reduzidos às suas menores partes. Veja o desenvolvimento da especialização na medicina, tanto a nível de profissionalização, quanto ao campo dos estudos e pesquisas que se desenvolveram sob a ótica da biologia celular e molecular. Pouco ainda se sabe sobre as funções integrativas que se processam no organismo humano. Por exemplo, a medicina possui alguns conhecimentos sobre os circuitos nervosos, mas não consegue explicar como os neurônios operam conjuntamente para formar a ação integrativa do sistema nervoso. Outro exemplo está na área da embriogênese, considerada ainda um mistério. Não se explica como é que as células vão se dividindo e se especializando em diferentes funções, formando os diferentes tecidos e órgãos do corpo.
Os conceitos de saúde e de cura são pouco discutidos, quando não totalmente negligenciados nas escolas. Esta questão ainda se torna mais complicada ao se levar em conta a enorme influência que a indústria farmacêutica exerce sobre o sistema médico.
Antes de Descartes, a maioria dos terapeutas tratava dos seus pacientes no contexto do seu ambiente social e espiritual. Nos últimos três séculos, ao se concentrarem na máquina corporal, os médicos negligenciaram os aspectos psicológicos, sociais e ambientais das doenças.
(continua)
* ainda pode ser modificado
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