quarta-feira, 12 de agosto de 2009



O que acontece com o sistema nervoso durante a meditação? Francisco Varela, neurobiólogo e diretor de pesquisa no Centro Nacional de Pesquisa Científica de França afirma que “com enorme surpresa, temos visto que nos momentos de profunda introspeção não acontece nada de raro ou diferente do habitual no cérebro. Só que esta capacidade dos grupos neuronais para entrar em harmonia, torna-se mais eficaz e rápida. Isto é, que em lugar daquela melodia flutuante e indefinida da experiência cotidiana, o ato da reflexão produz uma música potente. Portanto, a capacidade que o homem tem de olhar para si próprio não é um desdobramento, senão uma maneira de tornar um processo comum, algo mais forte e poderoso. Você aprofunda algo que já tinha.” E é exatamente isso o que o Yoga faz com a gente! Nos torna conscientes do que já tínhamos: uma espiritualidade explorável usando a consciência. É tão simples que não parece possível. Mas é. E está mais perto do que você imagina. Pátañjali disse que “o samádhi está próximo para os que o anseiam com intensidade. Os frutos desse anseio serão proporcionais à sua intensidade.” Yoga Sútra, I:21,22.

Não vemos a realidade como ela é, mas como somos nós mesmos. Mas o que é a realidade? Ram Dass explica que “crescemos com um plano de existência que denominamos o real. Identificamo-nos por inteiro com essa realidade, tida por absoluta, e descartamos as experiências não compatíveis com ela como sonhos, alucinações, insanidade ou fantasia. O que Einstein demonstrou na física aplica-se também aos outros aspectos do cosmos: toda realidade é relativa. Cada realidade é verdadeira apenas dentro de certos limites; é apenas uma versão possível do modo de ser das coisas. Sempre há múltiplas versões da realidade. Despertar de uma realidade relativa é reconhecer-lhe a natureza relativa. A meditação é um instrumento para fazer precisamente isso.”

Os últimos três estágios do Yoga de Pátañjali, concentração, meditação e iluminação, constituem a técnica tríplice chamada samyama e são conhecidos como antaranga, membros internos, por oposição aos anteriores (bahiranga = externos), que regem a vida exterior. Isto, porque no samyama não se precisa nenhuma técnica fisiológica nova. A partir daqui, tudo acontece da pele para dentro.

E uma das coisas que acontece quando você medita, é a aparição dos poderes psíquicos, chamados siddhis. Qualquer estado mais elevado de consciência desencadeia os siddhis. Os siddhis vêm sozinhos com a prática, mas não são importantes. Importante é o seu desenvolvimento. Se poderes específicos surgirem ao longo do caminho, tudo bem. Pátañjali adverte sobre o perigo que se esconde na tentação de usar os siddhis. Pois quando alguém os obtém e começa a utilizá-los, esquece do objetivo do Yoga. É como se você pegasse uma chave de fenda para fazer algum conserto, mas, ao invés de trabalhar, ficasse olhando extasiado para o reflexo do sol nela e esquecesse para que você a pegou. Pátañjali dedica um capítulo inteiro do Yoga Sútra aos siddhis, porque você precisa saber o que é inútil também. Se ele não descrevesse os poderes, um a um, o praticante poderia se perder. Tudo o que você não entende lhe dá medo. Mas se você souber exatamente o que é um siddhi, quando ele se manifestar, você não entrará em pânico nem perderá o controle da situação.

* por Pedro Kupfer, em Yoga Prático

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