quinta-feira, 13 de agosto de 2009

praticar hatha yoga:

O hatha yoga é muito mais do que ter ou não ter flexibilidade corporal. Ser capaz de fazer posturas difíceis não significa que você sabe praticar yoga. De fato, a essência do yoga não está na superação de limites, mas sim na consciência com a qual esses limites são trabalhados. O importante não é a postura em si, mas como se chega a ela. Esse processo, por sua vez, revelará quão bem nós compreendemos a prática do yoga. As pessoas conduzem a sua prática com mentalidades diferentes. Algumas consideram a postura como um objetivo a ser atingido; ou seja, o que vale é conseguir fazer a postura. Outras fazem da postura uma ferramenta de investigação do corpo. Neste caso, ao invés de usarem o corpo para "abrir" uma postura, usam a postura para "abrir" o corpo. Seja qual for à mentalidade, o fato é que ela influencia, e muito, a maneira como as pessoas conduzem a sua prática.

Quem considera a postura como um objetivo final, acaba tornando-se menos sensível aos sinais emitidos pelo corpo. De fato, quando a mente está focada numa postura ideal, e não na real, pode-se experimentar frustrações, provocando tensões e dificultando os movimentos. O esforço físico, nesse caso, corre o risco de tornar-se intenso ou rápido demais, ao invés de permitir ao corpo que se "abra" naturalmente, num rítmo próprio. Por outro lado, quando o esforço está focado no processo, e não na postura, a abertura do corpo aparece naturalmente. Enfim, é possível fazer as posturas apenas com esforço, mas, ao longo prazo, o esforço, por si só, limita a abertura do corpo, e acaba inibindo um maior desenvolvimento na prática.

Nós estamos condicionados a valorizar o progresso. É natural que seja assim; o problema aparece quando fazemos a nossa prática depender de resultados, ao invés de considerá-la um processo diário de abertura e geração de energia. Essa dependência pode tornar-se um verdadeiro obstáculo à nossa prática. O entusiasmo com que praticamos é cíclico, no sentido de que em certos dias é maior, outras vezes é menor. Uma das razões para isso tem a ver com o apego aos resultados. À medida que progredimos, nós ficamos animados, e continuamos assim enquanto houver progresso. No entanto, mais cedo ou mais tarde o progresso vai estacionar. Nesse caso, se o principal objetivo da prática for o progresso, a falta dele poderá nos fazer perder interesse. A prática vai diminuir, ou acabar, até que o corpo comece a reclamar. Então, voltaremos a praticar, para nos sentir melhor, e novamente progrediremos - até o momento de estacionar novamente.

A postura mental com a qual se pratica yoga é de fundamental importância. A maioria dos limites que se impõem na prática diária tem origem mental, e não corporal. As pessoas acreditam que os seus bloqueios físicos são puramente físicos. No entanto, na minha opinião, quando o corpo se cansa, a mente se cansa antes dele, perdendo a concentração. E quando a mente se cansa, e perdemos a concentração, também diminui a nossa sensibilidade para perceber os sinais que o nosso corpo está emitindo. Assim, acabamos tratando o corpo com menos cuidado, o que por sua vez o deixa ainda mais cansado.

É importante perceber e entender as mensagens que o corpo nos manda. Essa sensibilidade é crucial não só para evitar contusões, e se recuperar delas, mas para se ter um maior controle do processo ióguico como um todo. Por exemplo, é o corpo que vai dizer se está na hora de nos aprofundarmos numa postura, ou se é melhor esperar.

Fundamentalmente, a prática do (hatha) yoga implica olhar para dentro de si e responder a pergunta, "quem sou eu?". À medida que nós mergulhamos nas profundezas do nosso ser, o conhecimento que adquirimos não diz respeito somente a nós, mas também à nossa existência num contexto de vida mais amplo. Quando as partes do todo se abrem, quebrando as barreiras da separação, a comunicação - que é comunhão - passa a ser possível.

O movimento está no núcleo da energia, dos relacionamentos, do crescimento - está no núcleo da vida. Evolução é a forma como o movimento se expressa por todo o universo. Evolução pode ser considerada um movimento em direção a uma maior complexidade e capacidade de adaptação. Na verdade, essa é apenas a camada externa da evolução, que torna possível o mais básico dos movimentos: a evolução da consciência. A maturidade e a evolução se dão quando a consciência se alarga, tornando-se mais inclusiva.

A prática do yoga promove abertura e movimento nos recantos mais profundos do nosso ser, expandindo a nossa consciência, e aumentando a nossa capacidade de comunicação. Essa autotransformação nos permite desenvolver um relacionamento mais profundo com a vida, e nos torna mais conscientes e participativos do processo de evolução.


Joel Kramer - "The Passionate Mind"

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